Uma mulher de 42 anos, moradora de Anápolis, chega à consulta com uma pasta cheia de exames de sangue normais e uma lista de queixas que ninguém explica: inchaço depois das refeições, cansaço no fim da tarde, queda de cabelo há oito meses. Alguém na academia sugeriu um teste de biorressonância pela urina.
Ela quer saber se vale a pena.
A cena se repete em consultórios de nutrição, tricologia e biomedicina de todo o país. O exame promete apontar, com uma amostra de urina ou de fios de cabelo, alimentos que fazem mal, minerais em falta e toxinas acumuladas. A promessa é sedutora justamente para quem já rodou o circuito de exames convencionais sem resposta.
Antes de responder, é preciso separar três coisas: o que o método afirma medir, como ele é feito nas clínicas que o oferecem e o que os órgãos reguladores concluíram sobre ele. Só com as três na mesa dá para decidir. Sem jogar dinheiro fora.
O que é o teste de biorressonância
Biorressonância é o nome dado a um conjunto de técnicas que partem de uma premissa: cada célula, órgão, alimento ou substância emitiria uma frequência eletromagnética própria. Um aparelho seria capaz de ler essas frequências e apontar o que está "em ressonância" ou "em dissonância" com o organismo. A grafia bioressonância, com um erre só, também aparece nas buscas, mas o termo correto tem dois.
Na classificação usada pelas clínicas, ele entra na categoria dos exames biofísicos, em oposição aos bioquímicos, como hemograma e dosagens hormonais. A proposta é que os dois se complementem: o bioquímico mede quantidades de substâncias no sangue, e o biofísico indicaria a resposta do corpo a elas. O método é popular na China e em países da Europa. Na Alemanha, segundo relatos de profissionais da área, chega a ser mais procurado do que exames laboratoriais em algumas clínicas de terapias integrativas. No Brasil, cresceu nos últimos anos ligado a consultórios de nutrição funcional, tricologia e estética.
Teste de biorressonância pela urina e pelo cabelo
A versão que mais gera dúvida é a feita com urina. O paciente coleta o material em casa ou na clínica, e ele pode até ser enviado pelo correio. A amostra passa por um equipamento que, segundo o fabricante, faz a leitura dos elétrons ressonantes e cruza o resultado com um banco de frequências de alimentos, parasitas, metais e minerais.
O laudo sai em quatro ou cinco dias e costuma listar alimentos "dissonantes", a serem evitados, deficiências de minerais e sinais de toxicidade parasitária, mineral ou alimentar, tudo numa tabela que muita gente leva para a nutricionista pedindo uma dieta baseada nela. Dá para imaginar a cena.
A biorressonância capilar segue lógica parecida, com fios de cabelo no lugar da urina. Nos consultórios de tricologia, ela costuma vir num pacote com outros três exames presenciais. A luz de Wood ilumina o couro cabeludo com radiação ultravioleta para revelar fungos e alterações de pigmento. A dermatoscopia amplia a imagem dos fios e da pele. O terceiro é a própria coleta de urina.
A segunda etapa: consulta e plano de tratamento
Depois dos laudos, o paciente se encontra com o profissional responsável, que interpreta os resultados e propõe um plano. Nas clínicas que trabalham com esse modelo, o plano é individual e pode reunir terapia capilar, homeopatia, fitoterapia, ozonioterapia, procedimentos estéticos, frequências metaterápicas e apoio nutricional, além de cuidados no pós-operatório de transplante capilar.
Quem vai sair dessa consulta com uma dieta restritiva deve fazer uma pergunta simples ao profissional: o que muda se aquele alimento não for cortado. Se a resposta for vaga, o risco é trocar um problema real por uma restrição desnecessária. Uma nutricionista em Anápolis pode revisar o laudo e montar um plano alimentar que não dependa dele; convênio e agenda devem ser confirmados direto com o consultório.
O que dizem CFM e Anvisa
Aqui a conversa muda de tom.
Em 13 de agosto de 2024, o Conselho Federal de Medicina publicou o Parecer CFM nº 19/2024, sobre a chamada biorressonância magnética quântica. O documento afirma que "não há explicação científica nem suporte em dados confiáveis de que esse método seja efetivo" e conclui que a prática não é considerada ato médico. Médicos que a utilizem ou divulguem, diz o parecer, devem ser denunciados ao Conselho Regional.
O mesmo parecer registra que não existe equipamento de biorressonância registrado na Anvisa. Sem registro, segundo o texto do CFM, fabricar, vender, divulgar ou usar o aparelho para fins de saúde fere a Lei 6.360/1976 e a Lei 6.437/1977, que regulam produtos sujeitos à vigilância sanitária. Em janeiro de 2025, a agência de checagem Lupa procurou evidências específicas sobre a versão com urina e não encontrou nenhum estudo que sustentasse sua eficácia.
Isso significa que a técnica não faz parte da medicina e não pode ser vendido como diagnóstico. Não significa que quem oferece o serviço esteja necessariamente agindo de má-fé: boa parte dos profissionais acredita no que aplica.
O ponto é outro. Acreditar não substitui medir.
Como usar o laudo sem largar os exames
Se um teste de biorressonância já foi feito, o laudo não precisa ir para o lixo. Também não pode virar bússola. A maneira mais segura de usá-lo é como lista de hipóteses. Cada alimento apontado como dissonante pode ser testado com um método reconhecido: exclusão por duas a quatro semanas com reintrodução controlada, sob orientação de nutricionista, é o padrão para suspeita de intolerância alimentar.
Deficiências de minerais, como ferro, zinco e vitamina D, têm dosagem sanguínea barata e disponível em qualquer laboratório de Anápolis. Suspeita de parasitose se confirma com exame parasitológico de fezes. Queda de cabelo persistente merece avaliação de tireoide, ferritina e hormônios antes de qualquer protocolo capilar.
Um dos papéis dos profissionais de biomedicina é justamente esse: interpretar exames laboratoriais, montar a sequência de investigação e evitar que o paciente gaste com testes que não mudam a conduta.
Quando o laudo biofísico e o bioquímico discordam, é o segundo que decide.
Denise Braga e a InSallus
A biomédica Denise Braga é um dos nomes mais conhecidos na aplicação desse tipo de teste dentro da tricologia. Ela começou em 1997 como patologista em laboratório de histologia e, a partir de 2001, passou a atuar em terapia capilar em Brasília. Era uma época em que o cuidado com o couro cabeludo ainda era pouco conhecido do público, e os cabelos chegavam maltratados por procedimentos químicos intensos.
Hoje ela coordena duas unidades em Águas Claras, com procedimentos para controle de queda e quebra, aceleração de crescimento, pós-operatório de transplante capilar e tratamentos naturais para alérgicos, gestantes e lactantes. As unidades contam com um laboratório de biofísica que dá suporte aos tratamentos de emagrecimento, estresse, queda capilar e saúde psíquica.
A clínica, que antes se chamava Fios Spa e hoje é a InSallus, foi premiada em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Opinião Pública (INBRAP) nas categorias Tecnologia, Acolhimento e Ambientação, sem registro de queixa nas plataformas públicas de reclamação. Ao longo de três décadas, Denise se dedicou à pesquisa e ao uso de fitoterapia e homeopatia para as desordens sistêmicas que refletem no cabelo. A proposta da clínica, nas palavras do próprio serviço, é que quem chega para tratar o cabelo acaba cuidando da saúde como um todo.
Vale lembrar que o tricologista não é obrigatoriamente médico, mas precisa ser profissional de saúde com formação específica em tricologia. Quem procura uma biomédica especializada em terapia capilar deve confirmar formação, convênio e agenda diretamente com a clínica, e levar os resultados laboratoriais recentes para a primeira consulta.
Perguntas frequentes sobre teste de biorressonância
O que é o teste de biorressonância pela urina?
É um exame não reconhecido pela medicina que analisa uma amostra de urina em um aparelho que, segundo os fabricantes, lê frequências eletromagnéticas e as compara com um banco de alimentos, minerais e parasitas. O laudo lista itens "dissonantes" e "ressonantes". O CFM afirma que não há dados confiáveis de que o método funcione.
Biorressonância capilar é a mesma coisa?
A lógica é a mesma, com cabelo no lugar da urina. Nas clínicas de tricologia, ela costuma acompanhar exames visuais reconhecidos, como luz de Wood e dermatoscopia. A diferença é que esses dois têm valor clínico comprovado para fungos, inflamação e miniaturização dos fios, enquanto a leitura de frequências não tem.
O exame de biorressonância pela urina tem registro na Anvisa?
Não. O Parecer CFM 19/2024 registra que nenhum equipamento de biorressonância possui registro na Anvisa. Sem registro, o aparelho não pode ser fabricado, vendido ou usado para fins de saúde no Brasil, segundo as leis sanitárias citadas no documento. Quem vende o exame deve ser questionado sobre isso.
Quanto tempo demora e como é feita a coleta?
A coleta de urina pode ser feita em casa ou na clínica, e algumas empresas aceitam amostra enviada pelo correio. O laudo costuma ficar pronto em quatro ou cinco dias. Depois vem a consulta de interpretação, na qual o profissional propõe um plano de tratamento individual com base no resultado.
O teste substitui exame de sangue?
Não substitui. Intolerâncias, carência de minerais e parasitoses têm métodos de diagnóstico reconhecidos: dieta de exclusão supervisionada, dosagens sanguíneas e exame de fezes. O laudo biofísico pode, no máximo, servir como lista de hipóteses a serem checadas por esses caminhos, com um profissional de biomedicina ou nutrição.
Resumo
Feito com urina ou cabelo, o teste de biorressonância promete apontar alimentos, minerais e toxinas em desequilíbrio. Em 2024, o CFM concluiu não haver dados confiáveis sobre sua eficácia, e nenhum aparelho tem registro na Anvisa. Clínicas de tricologia, como a de Denise Braga, o usam dentro de pacotes com exames reconhecidos. O caminho seguro é confirmar qualquer suspeita com exames de sangue e fezes, orientado por biomédico ou nutricionista.





