Sérgio, 47 anos, motorista de aplicativo em Goiânia, começou a largar o copo sem perceber. Primeiro foi o formigamento no polegar e no indicador da mão direita. Depois a dor que descia do pescoço até o cotovelo, pior de madrugada, a ponto de ele dormir sentado no sofá. A ressonância mostrou uma hérnia entre a quinta e a sexta vértebras do pescoço comprimindo a raiz do nervo.
Ele adiou a decisão por oito meses.
Nesse período, leu tudo o que encontrou, inclusive depoimentos de pessoas que fizeram cirurgia da coluna cervical, atrás de alguém que dissesse que dava para não operar. Encontrou de tudo: quem melhorou sem cirurgia, quem operou e ficou bem, quem se arrependeu de ter esperado.
Os relatos reunidos aqui foram compostos a partir de experiências comuns descritas por pacientes e pela literatura médica. Os nomes foram trocados.
Hérnia cervical: por que o braço dói mais que o pescoço
A coluna cervical tem sete vértebras e seis discos entre elas. Quando um disco se rompe e o conteúdo escapa para trás, ele aperta a raiz nervosa que sai naquele nível. O resultado é uma dor que percorre o trajeto do nervo: ombro, braço, antebraço e dedos. Muita gente, como Sérgio, passa meses tratando o ombro ou o cotovelo antes de olhar para o pescoço.
Lúcia, 55, cabeleireira em Anápolis, sentiu de outro jeito. A dor era no pescoço mesmo, com travamento ao virar a cabeça, e o braço esquerdo perdia força ao segurar o secador. Ela tinha hérnias em dois níveis. Antônio, 63, produtor rural em Rio Verde, quase não tinha dor. O sinal dele foi outro: dificuldade para abotoar a camisa e uma sensação de andar sobre algodão. Era a medula comprimida, e não só a raiz.
Dor cervical é comum. Segundo o estudo Global Burden of Disease de 2019, a prevalência de dor cervical no Brasil foi de 2.478,6 casos por 100 mil habitantes entre 15 e 49 anos e de 5.017,2 por 100 mil entre 50 e 69 anos. A projeção do mesmo grupo de pesquisa, na edição de 2021, é de 269 milhões de pessoas com dor cervical no mundo em 2050. A hérnia é só uma das causas, e a maioria dos casos não vai para a mesa de cirurgia.
A decisão: quando o tratamento sem cirurgia não basta
A diretriz da Associação Médica Brasileira, elaborada com a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, é clara sobre o momento. O tratamento inicial da hérnia cervical sem sinal de sofrimento da medula é clínico, com remédio, fisioterapia e tempo. A cirurgia entra para quem não melhora depois de dois a três meses de tratamento bem feito, para quem tem dor que não cede a nada ou para quem apresenta perda neurológica progressiva.
Sérgio se encaixou no primeiro grupo. Fez fisioterapia, tomou o que foi prescrito, fez um bloqueio da raiz. A dor cedeu por um mês e meio e voltou. Lúcia caiu no segundo: a fraqueza no braço estava piorando, e ela já derrubava a tesoura. O caso de Antônio era o mais urgente, porque a medula apertada por muito tempo pode deixar sequela se esperar demais.
O medo, nos três, tinha o mesmo nome: ficar paralisado. O ortopedista de coluna que atendeu Sérgio dedicou uma consulta inteira só a isso, mostrando na ressonância por onde entraria e a distância entre o disco e a medula. Quem faz a primeira avaliação com um ortopedista especialista em coluna em Goiânia costuma sair com essa explicação, e a orientação é confirmar convênio e agenda com o consultório antes de marcar.
Sérgio saiu dessa consulta com a data marcada.
Lúcia precisou de mais uma conversa. Levou o marido. Perguntou sobre a cicatriz, sobre a voz, sobre engolir. Saiu com as respostas anotadas.
Artrodese cervical e as alternativas: o que cada um escolheu
Sérgio e Lúcia fizeram a cirurgia mais comum para esse problema: a discectomia por via anterior com artrodese. O cirurgião entra por um corte de três a quatro centímetros na frente do pescoço, afasta a traqueia e o esôfago, retira o disco doente e coloca no lugar um espaçador, geralmente com enxerto ósseo e uma pequena placa com parafusos. Com o tempo, as duas vértebras se fundem em uma só.
No caso de Sérgio foi um nível. No de Lúcia, dois.
Antônio, com a medula comprimida em três níveis, fez uma cirurgia mais ampla, por trás do pescoço, para abrir espaço para a medula. Os três tinham a mesma pergunta antes: se perderiam movimento no pescoço. A resposta do cirurgião foi que a fusão de um ou dois níveis quase não é percebida no dia a dia, porque os demais discos compensam.
Existe ainda a prótese de disco cervical, que substitui o disco por um implante móvel em vez de fundir as vértebras. Sérgio perguntou. Era candidato, mas o convênio não cobria o implante, e ele optou pela artrodese. Para entender as causas, os sintomas e o que se faz antes de pensar em operar, a reportagem sobre hérnia de disco cervical reúne o básico.
Depoimentos de pessoas que fizeram cirurgia da coluna cervical: o pós-operatório
O que os três mais repetem é que o pós-operatório foi menos pesado do que imaginavam. A dor no braço de Sérgio sumiu na sala de recuperação. "Acordei e a primeira coisa que fiz foi mexer os dedos. O formigamento tinha ido embora." A dor que ficou era na garganta, ao engolir, como uma amigdalite.
Durou uma semana.
Lúcia teve rouquidão nos primeiros dias, efeito do afastamento da traqueia durante a cirurgia, e comeu só comida pastosa por cinco dias. A dor no pescoço em si foi controlada com analgésico comum. A alta veio no dia seguinte para os dois. Antônio, com a cirurgia maior por trás, ficou três dias internado e teve mais dor muscular, porque a via posterior atravessa a musculatura do pescoço.
O colar cervical dividiu os relatos. Sérgio usou por duas semanas, só para sair de casa. Lúcia, com dois níveis, usou durante seis semanas, tirando só para comer e tomar banho. Antônio usou por dois meses. A regra que os três ouviram foi a mesma: o colar serve para lembrar de não forçar, não para segurar a coluna, e o tempo depende da cirurgia e do cirurgião.
Ninguém podia dirigir nas primeiras semanas, porque virar o pescoço para olhar o retrovisor estava proibido. Levantar mais de cinco quilos também. Andar, ao contrário, era estimulado desde o primeiro dia. Sérgio caminhava vinte minutos de manhã e vinte à tarde na quadra de casa, no Jardim América.
Voltar ao trabalho e ao que se gostava de fazer
Sérgio voltou a dirigir para trabalhar com sete semanas, primeiro em turnos de quatro horas. O que mais atrapalhou não foi o pescoço, e sim a paciência para o trânsito de Goiânia sem poder virar a cabeça de repente.
Com três meses estava em jornada normal.
Lúcia demorou mais. Cabeleireira passa o dia com os braços levantados e o pescoço inclinado, o que pesa sobre a região operada. Ela voltou com dois meses e meio, atendendo metade da agenda, e só com quatro meses retomou o ritmo. O que ela ganhou foi a força do braço esquerdo, que tinha sumido por completo e voltou aos poucos ao longo de seis meses.
Antônio conta o resultado de um jeito próprio. "Abotoei a camisa sozinho no terceiro mês. Antes eu pedia para a minha mulher." A sensação de algodão sob os pés melhorou, mas não sumiu de todo, e o cirurgião havia avisado: quando a medula fica comprimida por muito tempo, parte do dano pode não voltar. Ele opera o trator de novo, com cuidado nas estradas de terra.
A fisioterapia, nos três, começou entre a terceira e a sexta semana, depois da liberação do cirurgião, com foco em postura, fortalecimento dos músculos profundos do pescoço e mobilidade dos ombros. Ninguém teve dor forte durante as sessões, ao contrário do que costuma acontecer em cirurgias de joelho e quadril.
Benefícios relatados e o que fariam diferente
O maior benefício, em todos os relatos, foi dormir.
Sérgio dormiu deitado na primeira noite em casa depois de meses no sofá. Lúcia deixou de acordar com a mão dormente. Antônio recuperou a destreza que não sabia que tinha perdido até ver o quanto voltou.
Sobre o que fariam diferente, Sérgio teria operado antes. Os oito meses de espera foram de dor, noites mal dormidas e menos corridas, com prejuízo no fim do mês. Lúcia teria feito fisioterapia preventiva de postura anos antes, porque o cirurgião explicou que o desgaste dos discos tinha relação com a posição de trabalho. Antônio teria procurado um médico assim que notou a mão desajeitada, e não seis meses depois.
Nenhum dos três se arrepende.
Todos recomendam que a decisão seja tomada com um especialista de coluna, depois de tentar o tratamento clínico pelo prazo indicado, e nunca por medo nem por pressa. A lista de especialistas em ortopedia do portal ajuda a começar essa busca.
Perguntas frequentes sobre cirurgia da coluna cervical
Cirurgia da coluna cervical é perigosa?
Toda cirurgia tem riscos, e na cervical eles incluem infecção, rouquidão temporária, dificuldade para engolir e, raramente, lesão neurológica. Nas técnicas atuais, feitas por equipe experiente, as complicações graves são incomuns. O risco de não operar, quando a medula está comprimida, pode ser maior do que o da cirurgia.
Quanto tempo leva a recuperação da artrodese cervical?
A alta costuma sair em um ou dois dias. As atividades leves voltam em duas a três semanas, o trabalho de escritório em três a seis semanas e o esforço físico por volta do quarto mês. A fusão completa do osso leva de seis meses a um ano, acompanhada por radiografias nas consultas de revisão.
Precisa usar colar cervical depois da cirurgia da coluna cervical?
Depende da técnica e do cirurgião. Em artrodese de um nível, muitos pacientes usam o colar por uma ou duas semanas, e alguns nem usam. Em cirurgias de dois ou mais níveis, ou por via posterior, o uso pode chegar a seis ou oito semanas. O colar lembra de não forçar o pescoço, mas não sustenta a coluna.
Quando dá para voltar a trabalhar depois da cirurgia da coluna cervical?
Trabalho sentado, sem carga, costuma ser retomado entre três e seis semanas. Quem dirige profissionalmente precisa da liberação para girar o pescoço, o que leva de seis a oito semanas. Funções com braços elevados, peso ou vibração pedem cerca de quatro meses e uma volta gradual, com adaptação da jornada nas primeiras semanas.
A dor no braço some depois da cirurgia?
Na maioria dos casos a dor irradiada para o braço melhora logo após a cirurgia, às vezes ainda no hospital, porque a compressão da raiz é retirada. O formigamento e a perda de força demoram mais, de semanas a meses, e a recuperação depende do tempo que o nervo ficou comprimido antes de operar.
Resumo
Os depoimentos de pessoas que fizeram cirurgia da coluna cervical apontam para a mesma direção. O medo antes é maior do que a dor depois. A dor do braço costuma sumir logo, o colar dura semanas e a volta ao trabalho varia com a profissão. Ninguém se arrependeu de operar, e quem esperou demais se arrepende da espera. Dor no braço com formigamento ou fraqueza merece avaliação de um especialista em coluna.





