Uma professora de 44 anos, moradora de Anápolis, levanta da cama, apoia o pé no chão e sente uma fisgada no calcanhar direito, como se pisasse numa pedra pontiaguda. Depois de dez ou doze passos a dor afrouxa. À tarde, ao descer do carro após uma hora sentada, a pontada volta com a mesma força. Ela digita "dor no calcanhar o que pode ser" no celular antes de marcar consulta, e não está sozinha: só essa pergunta soma dezenas de milhares de buscas por mês no Brasil.
A causa mais frequente tem nome: fascite plantar. Cerca de 10% das pessoas passam por ela em algum momento da vida, segundo levantamentos citados pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor. E há uma notícia boa, vinda de estudos publicados na Revista Brasileira de Ortopedia, periódico da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia: o tratamento é conservador na quase totalidade dos casos, com taxa de sucesso em torno de 90% sem nenhuma cirurgia.
O que muda o resultado é acertar a origem e começar cedo.
Dor no calcanhar: o que pode ser em cada ponto do pé
O lugar exato onde dói é a primeira pista, e o ortopedista costuma pedir para o paciente apontar com um dedo. Quando o ponto fica embaixo do calcanhar, um pouco para dentro, a suspeita recai sobre a fáscia plantar, uma faixa de tecido fibroso que sai do osso do calcanhar, corre pela sola e se prende na base dos dedos. Ela sustenta o arco do pé a cada passo. Sobrecarregada por peso, impacto ou panturrilha encurtada, sofre pequenas lesões bem na inserção óssea, e é ali que a dor se concentra.
O esporão de calcâneo entra na conversa logo depois, quase sempre pelo raio-X. Trata-se de uma ponta de osso que cresce na frente do calcanhar, na direção dos dedos, e muita gente atribui a dor a ela. Levantamentos radiográficos publicados na Revista ABTPé, da Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé, mostram esporão em metade ou mais dos pés de pessoas que nunca sentiram nada. O esporão é consequência da tração crônica da fáscia, não a causa principal da dor.
Quando a dor fica atrás do calcanhar, na altura em que o tênis encosta, o alvo muda. Ali se prende o tendão de Aquiles, o mais forte do corpo, e a tendinite de inserção dói ao subir escada, ao correr e ao ficar na ponta dos pés. Uma bolsa de líquido entre o tendão e o osso, a bursa retrocalcânea, também pode inflamar, com inchaço e vermelhidão visíveis. Sapatos com contraforte rígido pioram as duas situações, e a relação entre esporão do calcâneo e tendinite de Aquiles merece atenção porque um esporão posterior pode se formar exatamente nessa inserção.
Existem causas menos comuns que o exame físico precisa afastar. A fratura por estresse do calcâneo aparece em corredores que aumentaram a quilometragem de repente e dói ao apertar o osso pelos lados. A compressão do nervo de Baxter provoca queimação e formigamento na parte interna do calcanhar. Em idosos, o coxim gorduroso que amortece o osso pode afinar, e a pessoa sente como se pisasse direto no osso. Em crianças entre 8 e 14 anos, a dor atrás do calcanhar durante o esporte costuma ser a doença de Sever, uma irritação da cartilagem de crescimento que some quando o osso amadurece.
Dor nos dois calcanhares ao mesmo tempo, com rigidez matinal que dura mais de meia hora e dor lombar associada, pede investigação de doença reumatológica, como a espondiloartrite. Nessa situação o ortopedista costuma pedir exames de sangue e encaminhar ao reumatologista.
Por que o calcanhar dói mais ao pisar de manhã
Durante o sono o pé fica relaxado, com a ponta caída, e a fáscia plantar encurta um pouco. Ao apoiar o peso do corpo nos primeiros passos, ela é esticada de uma vez, e as microlesões da inserção reabrem. É por isso que a dor no calcanhar ao pisar no chão pela manhã é tão característica da fascite plantar, e também por que ela alivia depois de alguns minutos de caminhada, quando o tecido aquece. O mesmo mecanismo se repete depois de qualquer período longo sentado.
O horário da dor já conta metade da história.
O padrão oposto tem outro significado. Dor que começa fraca e piora ao longo do dia, com a atividade, aponta para o tendão ou para uma fratura de fadiga do calcâneo. Já a dor constante, que não alivia com repouso, acorda à noite e vem com calor e inchaço, não se encaixa em nenhum quadro mecânico e precisa de avaliação rápida.
Lado esquerdo ou lado direito não mudam o diagnóstico. O calcanhar que dói costuma ser o do membro que recebe mais carga, seja por uma diferença pequena de comprimento entre as pernas, por um pé mais plano de um lado ou pelo hábito de apoiar mais peso numa perna ao ficar em pé. Quando os dois doem juntos, ganho de peso rápido, gestação e profissões que exigem horas de pé, como professores, cabeleireiros e vigilantes, são as explicações mais comuns.
Como o ortopedista chega ao diagnóstico
A consulta começa com perguntas simples sobre quando dói, há quanto tempo e o que mudou na rotina nos meses anteriores: calçado novo, começo de corrida, aumento de peso, novo emprego de pé. Em seguida o médico pressiona a inserção da fáscia, estica os dedos para cima para tensionar a faixa, aperta o Aquiles e mede quanto o tornozelo dobra com o joelho esticado. Panturrilha encurtada, que limita esse movimento, é um dos fatores de risco mais consistentes para a fascite.
O raio-X mostra o esporão e afasta fratura. A ultrassonografia mede a espessura da fáscia, e valores acima de 4 milímetros, junto com o quadro clínico, reforçam o diagnóstico. A ressonância magnética fica reservada para dor que não responde ao tratamento ou para suspeita de lesão do tendão, fratura oculta ou tumor.
Um ortopedista de pé e tornozelo em Goiânia faz essa avaliação em consulta e define se algum exame de imagem é mesmo necessário. Convênio aceito e disponibilidade de agenda devem ser confirmados direto com o consultório antes de marcar.
Tratamento da dor no calcanhar em casa
A maior parte dos casos melhora com medidas simples, desde que feitas todo dia. O alongamento da fáscia é o mais importante. Sentado, com a perna cruzada, a pessoa puxa os dedos do pé em direção à canela e mantém a posição por cerca de meio minuto. Vale repetir algumas vezes antes de levantar da cama e ao longo do dia. O alongamento da panturrilha contra a parede, com o joelho esticado e depois dobrado, completa o trabalho. Rolar uma garrafa de água congelada sob a sola por alguns minutos alivia a dor e reduz a inflamação local.
O calçado faz diferença. Solado com amortecimento e um pouco de salto, entre dois e três centímetros, tira carga da fáscia. Andar descalço em piso frio e duro, sandália rasteira sem apoio e tênis gasto pioram o quadro. Uma calcanheira de silicone ou uma palmilha com apoio de arco, de venda livre, resolve muitos casos leves. A tala noturna, que mantém o pé dobrado para cima durante o sono, impede o encurtamento da fáscia e reduz a dor matinal em quem acorda pior.
Remédio para dor no calcanhar existe, mas com limite claro.
Anti-inflamatórios por via oral aliviam por alguns dias e podem ser úteis no início, sempre com orientação médica, porque o uso prolongado traz risco para estômago, rins e pressão arterial. Pomadas e géis têm efeito discreto. Nenhum medicamento substitui o alongamento diário, e quem só toma comprimido costuma voltar ao consultório com a mesma queixa meses depois.
Fisioterapia, ondas de choque e infiltração
Quando a dor passa de seis a oito semanas sem melhora, a fisioterapia entra. O programa combina alongamento supervisionado, terapia manual na fáscia e na panturrilha, fortalecimento dos músculos pequenos do pé e do tendão com carga progressiva, e correção da pisada. Sessões com uma fisioterapeuta para dor no pé em Goiânia costumam ser marcadas duas vezes por semana no começo; convênio e horários devem ser confirmados no próprio consultório.
A terapia por ondas de choque é indicada para a fascite que dura mais de seis meses. O aparelho aplica pulsos de pressão sobre a inserção da fáscia para estimular a cicatrização, em geral em três a cinco sessões semanais. Revisões de ensaios clínicos apontam menos dor e mais função na maioria dos pacientes que não haviam respondido a outras medidas.
A infiltração com corticoide alivia rápido, às vezes em dias, e é tentadora. O problema é que injeções repetidas enfraquecem a fáscia, com risco de ruptura, e podem atrofiar o coxim gorduroso, o que troca uma dor por outra pior. Por isso a maioria dos especialistas limita a uma ou duas aplicações e reserva o recurso para quem não conseguiu melhorar com o restante.
Cirurgia e sinais que não devem esperar
A cirurgia é exceção. Ela só entra depois de seis a doze meses de tratamento conservador bem feito, sem resposta, e consiste em liberar parcialmente a fáscia na inserção, hoje em geral por via endoscópica, com cortes pequenos. Quando há encurtamento importante da panturrilha, o cirurgião pode optar por alongar o músculo gastrocnêmio, o que tira tensão da fáscia sem mexer nela. A recuperação leva algumas semanas de carga parcial e reabilitação.
Alguns sinais mudam a urgência. Dor no calcanhar que surge depois de queda ou trauma e impede apoiar o pé pode ser fratura. Calcanhar inchado, quente e vermelho, com febre, sugere infecção. Dormência que sobe pela perna, dor noturna intensa sem relação com esforço e perda de peso sem explicação também fogem do padrão mecânico. Nesses casos a orientação é procurar um pronto-socorro; se não houver como se locomover, ligar para o SAMU no 192. Fora das emergências, a avaliação cabe à diretório de ortopedistas, de preferência com quem se dedica ao pé.
Perguntas frequentes sobre dor no calcanhar
Dor no calcanhar ao pisar no chão, o que pode ser?
Na maioria das vezes é fascite plantar, inflamação da faixa de tecido que sustenta o arco do pé. A dor fica embaixo do calcanhar, forte nos primeiros passos da manhã e depois de ficar sentado, e alivia com alguns minutos de caminhada. Esporão, tendinite de Aquiles e fratura por estresse são as outras causas a considerar.
Qual é o melhor remédio para dor no calcanhar?
Não há comprimido que trate a causa. Anti-inflamatórios aliviam por poucos dias e devem ser usados com orientação médica, por causa dos efeitos no estômago e nos rins. O que resolve a longo prazo é alongar fáscia e panturrilha todos os dias, usar calçado com amortecimento e reduzir a carga sobre o pé.
Dor no calcanhar esquerdo ou direito tem causa diferente?
Não. O lado que dói costuma ser o que recebe mais carga, por diferença de comprimento entre as pernas, pé mais plano de um lado ou hábito de apoiar mais peso numa perna. Quando os dois calcanhares doem juntos, ganho de peso, gestação e trabalho em pé por muitas horas são as explicações mais frequentes.
Como tratar a dor no calcanhar em casa?
Alongar a fáscia puxando os dedos para cima antes de sair da cama, alongar a panturrilha na parede, rolar uma garrafa congelada sob a sola, usar tênis macio e evitar andar descalço em piso duro. Calcanheira de silicone ajuda nos casos leves. Se em seis semanas nada mudar, procure avaliação.
Calcanhar doendo há meses precisa de cirurgia?
Raramente. A cirurgia só é considerada após seis a doze meses de tratamento conservador sem resposta, o que acontece com uma minoria dos pacientes. Antes dela, fisioterapia, tala noturna, palmilha e a terapia por ondas resolvem a maior parte dos casos crônicos. Um ortopedista especializado em pé define a sequência certa.
Resumo
Dor na base do calcanhar, pior ao levantar da cama, é quase sempre fascite plantar. Dor atrás aponta para o Aquiles ou a bursa. O esporão aparece no raio-X de muita gente sem dor e raramente é o culpado. Alongamento diário, calçado adequado e fisioterapia resolvem cerca de 90% dos casos. Trauma, febre, inchaço com calor e dormência na perna pedem atendimento imediato.





