Iracema, 74 anos, escorregou no piso molhado do banheiro, em Anápolis, numa terça-feira de manhã. Não conseguiu levantar. O filho a encontrou meia hora depois, e a radiografia no pronto-socorro mostrou a fratura do colo do fêmur. Em menos de 48 horas ela estava com uma prótese total no quadril.
Roberto, 52, chegou ao mesmo tipo de cirurgia por um caminho bem mais lento: dois anos de dor na virilha que ele achava que era muscular. Histórias tão diferentes explicam por que quem procura depoimentos de pessoas que fizeram cirurgia de quadril encontra relatos que parecem não combinar entre si. A urgência de uma fratura e a espera de uma artrose levam a recuperações com ritmos próprios.
Os relatos desta reportagem foram compostos a partir de experiências comuns descritas por pacientes e pela literatura médica. Os nomes foram trocados.
Artrose ou fratura: os dois motivos mais comuns
A artrose é o motivo mais frequente entre quem opera de forma planejada. A cartilagem que reveste a cabeça do fêmur e o acetábulo se desgasta, o osso passa a roçar no osso e a dor aparece na virilha, na lateral da coxa e às vezes no joelho. Roberto demorou a ligar os pontos justamente por isso. "Eu reclamava do joelho e o problema era em cima."
Neusa, 66, professora aposentada em Rio Verde, seguiu o mesmo roteiro. Fisioterapia, remédio, perda de peso, uma infiltração. Melhorava por uns meses e voltava. O ortopedista explicou que ela já não tinha espaço articular na radiografia e que o tratamento sem cirurgia havia chegado ao limite. Quem quer entender essa fase pode ler a reportagem sobre artrose no quadril, que detalha sintomas e opções antes da prótese.
A fratura do fêmur é o outro grande motivo, quase sempre em pessoas acima de 65 anos com osteoporose. Os números do Sistema de Informações Hospitalares do SUS, mantido pelo Ministério da Saúde, mostram o tamanho do problema. Entre 2015 e 2024 foram 690.382 internações de idosos por fratura de fêmur no país, com 34.141 mortes durante a internação, uma taxa de 5,21%. Mais de 70% desses óbitos ocorreram em pessoas com 80 anos ou mais.
Iracema entra nessa estatística.
E é por isso que, na fratura, o tempo pesa. Operar rápido reduz o período deitada, a chance de trombose, pneumonia e escara. Ela não teve tempo de ter medo. "Quando entendi o que estava acontecendo, já estava operada."
Prótese total de quadril: o que os pacientes entenderam da cirurgia
Nos três casos a escolha foi a artroplastia total. O cirurgião retira a cabeça do fêmur desgastada ou quebrada, encaixa uma haste metálica dentro do osso e coloca uma cúpula nova no acetábulo, com um revestimento de polietileno ou cerâmica entre as duas partes. A cirurgia leva de uma a duas horas.
Um levantamento com dados do Datasus publicado na HU Revista contou 166.365 artroplastias de quadril pelo SUS entre 2008 e 2015. Mais da metade, 56,9%, eram próteses totais primárias, ou seja, a primeira cirurgia naquele quadril. A média passou de 11 mil procedimentos por ano, e a curva subiu depois de 2012.
Roberto quis saber sobre a via de acesso. Existe a anterior, a lateral e a posterior, e cada uma corta ou afasta músculos diferentes. O ortopedista dele optou pela posterior, a mais usada, e explicou as restrições de movimento das primeiras semanas antes mesmo de marcar a data.
Neusa não perguntou nada disso. Hoje diz que perguntaria.
Depoimentos de pessoas que fizeram cirurgia de quadril: os primeiros passos
Os três ficaram em pé no dia seguinte.
Iracema achou que não fosse conseguir, e levou dez minutos só para sentar na beira da cama. Com o andador e a fisioterapeuta segurando o cinto, deu cinco passos.
Chorou. "Não de dor. De susto por estar em pé."
A dor dos primeiros dias, nos relatos, é menor do que a esperada. Roberto deu nota seis no primeiro dia e três no quarto. O que incomodou mais foi a rigidez e o inchaço da coxa, que desceu até o pé e durou duas semanas. Neusa achou pior a noite: dormir de costas, com um travesseiro entre as pernas, foi o que mais custou a aceitar.
A alta chegou no terceiro dia para Roberto e Neusa, e no quinto para Iracema, que precisou de mais tempo por causa da idade e de uma anemia leve. Em casa, todos tiveram de seguir as mesmas regras por seis semanas: não cruzar as pernas, não dobrar o quadril além de 90 graus, não girar o pé para dentro. Cadeira alta, assento elevado no vaso sanitário e uma pinça para pegar coisas no chão viraram parte da rotina.
Quem passa por um ortopedista especialista em quadril em Goiânia sai com essa lista impressa, e o próprio consultório orienta a confirmar convênio e agenda antes da primeira consulta. Neusa colou a folha na porta da geladeira. Roberto fotografou e deixou de fundo de tela.
As fases da recuperação, mês a mês
O primeiro mês é o do andador. Fisioterapia três vezes por semana, exercícios em casa duas vezes por dia, caminhadas curtas dentro de casa e depois na calçada. Roberto, que trabalha com vendas, fazia ligações sentado e caminhava pelo corredor entre uma e outra.
Do segundo mês em diante, a bengala substitui o andador. O passo fica mais firme, o inchaço diminui e o sono melhora. Neusa voltou a cozinhar em pé e a ir à feira de Rio Verde de carona, ainda sem carregar sacola. A força do glúteo, que sustenta o quadril ao caminhar, é o que os fisioterapeutas mais cobram nessa fase.
Aos três meses, os três andavam sem apoio. Iracema ainda usava a bengala fora de casa, mais por segurança do que por necessidade. Roberto voltou à academia com liberação por escrito e restrições: nada de agachamento profundo, nada de corrida.
O sexto mês aparece como o ponto em que o quadril vira assunto encerrado. A perna operada ainda pode parecer um pouco diferente, e alguns sentem um estalo ocasional.
Nada que limite.
Dirigir e trabalhar de novo
Dirigir foi a pergunta que Roberto mais fez.
A resposta dependeu de qual lado foi operado e do carro. Como o quadril direito, o que pisa nos pedais, foi o operado, ele esperou seis semanas e uma liberação do médico. Neusa, operada do lado esquerdo e com carro automático, voltou ao volante em quatro semanas, primeiro em trajetos curtos dentro do bairro.
O trabalho seguiu lógica parecida. Roberto retomou o home office em duas semanas e as visitas a clientes em oito. Neusa, aposentada, marcou como volta ao trabalho o dia em que conseguiu cuidar das plantas agachada, no terceiro mês. Quem tem função braçal ou fica muito tempo em pé costuma precisar de três a quatro meses e de uma conversa com a empresa sobre adaptação.
Iracema não pensava em trabalho, e sim em ficar sozinha em casa de novo. Isso aconteceu no quarto mês. Antes disso a família instalou barras no banheiro, tirou os tapetes e trocou o chinelo por sandália com tira no calcanhar.
Nenhum desses cuidados custou caro, e todos apareceram na lista do que eles recomendam.
Dicas de quem passou e o que fariam diferente
A primeira dica dos três é preparar a casa antes da cirurgia, não depois. Cadeira alta, cama na altura certa, corrimão, luz de presença no corredor. Roberto comprou tudo na última hora e passou os dois primeiros dias sentado num sofá baixo demais, que doía para levantar.
A segunda é levar a fisioterapia a sério desde o hospital. Neusa faltou a algumas sessões no segundo mês por achar que já andava bem. Voltou a mancar e precisou de mais um mês para corrigir.
"Andar bem não é o mesmo que estar forte."
A terceira dica é sobre a cabeça. Roberto não esperava a irritação da terceira semana, quando a dor já não justificava a limitação e mesmo assim ele não podia fazer quase nada sozinho. Conversar com alguém que já tinha operado ajudou mais que qualquer explicação técnica.
Sobre o que fariam diferente, Roberto teria investigado a dor na virilha dois anos antes. Alguns casos de dor no quadril em adultos mais jovens têm origem em problemas de circulação do osso, e a reportagem sobre osteonecrose do quadril explica por que essa dor silenciosa merece investigação cedo. Neusa teria perguntado sobre a via de acesso e sobre o tipo de prótese. Iracema teria feito a densitometria que o clínico pediu no ano anterior.
Perguntas frequentes sobre cirurgia de quadril
O que dizem as pessoas que fizeram cirurgia no quadril sobre a dor?
A maioria descreve a dor do pós-operatório como menor do que a esperada e bem diferente da dor da artrose, que era constante. Os piores dias são o segundo e o terceiro. Depois da primeira semana, o desconforto passa a ser de rigidez e inchaço, mais do que de dor, e vai cedendo com a fisioterapia.
Qual a opinião de quem já fez cirurgia de quadril sobre o tempo de recuperação?
Os relatos apontam seis semanas para as restrições de movimento, três meses para andar sem apoio com segurança e seis meses para se sentir de fato recuperado. Quem operou por fratura, em idade avançada, costuma levar mais tempo em cada fase. A consistência na fisioterapia é o que mais encurta esse caminho.
Pessoas que fizeram artroplastia de quadril voltam a andar normalmente?
Sim, na grande maioria dos casos, e sem mancar. A marcha melhora de forma gradual: andador no primeiro mês, bengala no segundo, passo livre a partir do terceiro. Alguns pacientes percebem uma leve diferença de comprimento entre as pernas, que o ortopedista avalia e, quando necessário, corrige com palmilha.
Quanto tempo depois da cirurgia de quadril dá para dirigir?
Entre quatro e seis semanas, com liberação do cirurgião. O prazo depende de qual lado foi operado, do tipo de câmbio e da força para frear com segurança. Quem opera o quadril direito e dirige carro manual costuma esperar mais. O primeiro trajeto deve ser curto e em horário de pouco trânsito.
Quando dá para voltar a trabalhar depois da cirurgia de quadril?
Trabalho sentado e de escritório costuma ser retomado em duas a quatro semanas, às vezes em regime remoto. Funções em pé ou com esforço físico pedem de três a quatro meses e uma avaliação do ortopedista. A volta gradual, com carga menor nas primeiras semanas, reduz o risco de recaída e de dor.
Resumo
Os depoimentos de pessoas que fizeram cirurgia de quadril mostram dois caminhos até a mesma prótese: a artrose que dói por anos e a fratura que muda tudo em um dia. Os primeiros passos acontecem no dia seguinte. As restrições duram seis semanas e o quadril deixa de ser assunto por volta do sexto mês. Quem convive com dor na virilha há meses deve procurar avaliação ortopédica antes que a cartilagem acabe.





