Um vendedor de 41 anos, de Anápolis, passou seis meses tratando o que achava ser dor muscular na virilha esquerda. Anti-inflamatório, pomada, uns dias de repouso. A dor voltava sempre que caminhava mais de duas quadras. Quando a ressonância finalmente foi pedida, o laudo trouxe um nome que ele nunca tinha ouvido: osteonecrose da cabeça femoral, já com sinal de fratura sob a cartilagem.
Histórias assim são comuns porque a doença não avisa. A dor no quadril, tantas vezes atribuída a desgaste natural ou a problema muscular, pode esconder uma condição séria e progressiva, em que a circulação de sangue para a cabeça do fêmur falha e as células do osso morrem por falta de irrigação. Sem o aporte de sangue, o osso enfraquece, pode sofrer colapso estrutural e comprometer a articulação inteira.
Diferente da artrose comum, que atinge sobretudo idosos, a osteonecrose acomete gente em plena vida produtiva. Segundo artigo de atualização da Revista Brasileira de Ortopedia, publicação da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, a forma não traumática ocorre principalmente entre os 30 e os 50 anos, com predomínio em homens.
O que é a osteonecrose da cabeça femoral
A cabeça do fêmur é a parte arredondada do osso da coxa que encaixa na bacia e forma o quadril. Ela recebe sangue por um conjunto pequeno de artérias, sem muitas vias alternativas. Quando esse fluxo é interrompido ou reduzido, o osso na região perde oxigênio e nutrientes, e as células ósseas morrem. É o que os médicos chamam de necrose avascular.
O osso morto não se sustenta. Com o tempo, a parte da cabeça femoral que suporta a carga do corpo afunda, primeiro com uma fratura microscópica sob a cartilagem e depois com o achatamento visível na radiografia. A esfera perde o formato, a cartilagem se rompe e o quadril desenvolve uma artrose secundária, em geral rápida e dolorosa.
O processo é progressivo e silencioso no início. Por isso o intervalo entre o primeiro sintoma e o diagnóstico define, em grande parte, quais tratamentos ainda são possíveis.
Causas: corticoide, álcool e trauma
O uso prolongado ou em altas doses de corticoides é a causa não traumática mais conhecida. O Manual MSD estima que os corticosteroides estejam associados a cerca de 20% do total de casos de osteonecrose. Pacientes com lúpus, asma grave, doenças renais, transplantados e pessoas que receberam corticoide em altas doses durante a pandemia de covid-19 fazem parte do grupo de risco.
O consumo excessivo de álcool vem em seguida. O etanol altera o metabolismo das gorduras e favorece a formação de pequenos êmbolos e o aumento da pressão dentro do osso, o que estrangula a circulação. Quanto maior a quantidade e o tempo de consumo, maior o risco.
As causas traumáticas são a fratura do colo do fêmur e a luxação do quadril, que rompem os vasos no momento da lesão. Doenças vasculares, anemia falciforme, doenças da coagulação, mergulho com descompressão inadequada, quimioterapia e radioterapia completam a lista. Em uma parcela dos pacientes não se encontra origem alguma, e a doença é classificada como idiopática.
Quem usa corticoide por tempo prolongado e sente dor na virilha deve mencionar o medicamento ao médico logo na primeira consulta. Essa informação, sozinha, muda a hipótese diagnóstica e antecipa o pedido da ressonância. O atendimento em ortopedia em Goiânia para esses casos costuma envolver o ortopedista de quadril desde o início.
Sintomas que não devem ser ignorados
Nos estágios iniciais a dor é discreta, localizada na virilha, na nádega ou na lateral do quadril, e piora ao caminhar ou fazer esforço. Alivia com repouso. Muitos pacientes descrevem uma fisgada ao girar a perna ou ao levantar do carro, sem lembrar de nenhuma pancada.
Com a progressão, a dor passa a ser constante, inclusive à noite e em repouso. Subir escadas, calçar sapatos, caminhar por mais tempo e até tarefas simples do dia a dia ficam difíceis. A pessoa começa a mancar e a rotação do quadril diminui de forma visível no exame físico.
Com frequência a doença atinge os dois quadris, embora um lado costume doer antes. Por isso o médico investiga ambos mesmo quando a queixa é de um só. A perda de mobilidade e a limitação funcional afetam diretamente a qualidade de vida, o que torna o diagnóstico precoce decisivo.
Dor na virilha em adulto jovem não é queixa banal.
Diagnóstico e estágios
A radiografia é o primeiro exame, mas pode estar normal nos estágios iniciais. Já a ressonância magnética é o exame de escolha, porque mostra a área de osso sem circulação meses antes de qualquer alteração radiográfica, e ainda mede o tamanho e a posição da lesão, dois fatores que definem o prognóstico.
A classificação mais usada é a de Ficat e Arlet, em quatro estágios. No primeiro, a radiografia é normal e só a ressonância acusa a lesão. O segundo traz áreas de esclerose e cistos, mas a cabeça mantém o formato esférico. No terceiro surge a fratura subcondral, o sinal do crescente, e o começo do achatamento. O quarto é o colapso da cabeça, com artrose secundária instalada.
A fronteira que importa está entre os estágios 2 e 3. Antes do colapso, existem tratamentos que tentam preservar a articulação natural. Depois dele, a preservação perde eficácia e a discussão passa a ser sobre prótese.
Tratamento antes do colapso
Quando a lesão é identificada nas fases iniciais, é possível realizar tratamentos preservadores. O mais tradicional é a descompressão do núcleo: uma ou mais perfurações na cabeça femoral, feitas por dentro do osso, para aliviar a pressão interna, estimular a chegada de novos vasos e favorecer a recuperação do tecido.
Sozinha, a descompressão simples tem limites. Estudo publicado na Revista Brasileira de Ortopedia com pacientes nos estágios 1 e 2A de Ficat registrou melhora dos sintomas em 83,3% dos quadris nos primeiros seis meses. Depois, porém, houve progressão com colapso em 73,3% dos casos, e metade precisou de prótese, em média pouco mais de um ano após o procedimento. Lesões pequenas e centrais têm melhor evolução; lesões grandes e laterais tendem a colapsar.
Por isso a técnica passou a ser combinada com recursos de medicina regenerativa, como enxerto ósseo, concentrado de células da medula óssea do próprio paciente e substitutos sintéticos, na tentativa de sustentar a área enfraquecida e melhorar a regeneração. Um especialista em cirurgia do quadril em Goiânia avalia o estágio, o tamanho da lesão e o perfil do paciente para escolher a combinação mais adequada. Convênio e agenda devem ser confirmados direto com o consultório.
Medidas clínicas acompanham a cirurgia preservadora: suspender ou reduzir o corticoide quando a doença de base permitir, interromper o álcool, controlar o peso e usar muletas por algumas semanas para tirar carga da cabeça femoral. Medicamentos como bifosfonatos e anticoagulantes já foram testados, com resultados variáveis, e não substituem o procedimento.
Sem tirar o gatilho, nenhuma técnica segura o osso.
Prótese de quadril: quando se torna necessária
Nos casos em que já ocorreu colapso ósseo e desgaste articular avançado, a preservação deixa de ser eficaz, e a cirurgia de prótese de quadril passa a ser a indicação. A artroplastia total substitui a cabeça do fêmur e o acetábulo por componentes de metal, cerâmica e polietileno, e elimina a fonte da dor.
Muitos pacientes, sobretudo os mais jovens, recebem a indicação com receio. A artroplastia moderna, porém, é um procedimento seguro, com materiais de longa durabilidade e resultado funcional consistente: alivia a dor, restaura o movimento e devolve a independência. A cirurgia permite voltar a caminhar sem dor, dirigir e trabalhar, com restrição apenas a esportes de impacto alto.
O quadril que colapsou por osteonecrose evolui para uma artrose parecida com a coxartrose, a artrose no quadril de origem degenerativa, e o tratamento na fase avançada segue a mesma lógica: controle dos sintomas enquanto for possível e prótese quando a dor limita a vida.
Buscar ajuda cedo faz diferença
A osteonecrose da cabeça femoral é uma condição progressiva, e o tempo é o fator decisivo para definir as possibilidades de tratamento. Dor persistente na virilha por mais de duas ou três semanas, em adulto jovem, principalmente em quem usa corticoide ou bebe em excesso, pede avaliação com ortopedista especialista em cirurgia do quadril, e não mais uma rodada de anti-inflamatório.
Sinais de emergência são raros nessa doença, mas existem: dor súbita e intensa no quadril com incapacidade de apoiar a perna, sobretudo após queda, pode significar fratura e exige pronto-socorro ou chamada ao 192. Febre alta com dor articular aguda também pede atendimento no mesmo dia, pela possibilidade de infecção.
Hugo Ximenes, ortopedista especialista em quadril em Goiânia, atende com frequência pacientes que chegaram tarde, com o colapso já instalado, e para quem a única saída passou a ser a prótese. A orientação que ele mantém é a mesma para todos: cuidar cedo é preservar movimento, autonomia e qualidade de vida. Convênio e agenda devem ser confirmados direto com o consultório.
Perguntas frequentes sobre osteonecrose da cabeça femoral
O que causa a osteonecrose da cabeça do fêmur?
Interrupção do fluxo de sangue para a cabeça do fêmur. As causas mais frequentes são uso prolongado ou em alta dose de corticoides, consumo excessivo de álcool, fraturas do colo do fêmur e luxações do quadril. Anemia falciforme, doenças da coagulação e quimioterapia também entram. Em parte dos casos não se identifica causa.
Quais são os sintomas iniciais?
Dor discreta na virilha, na nádega ou na lateral do quadril, que piora ao caminhar ou girar a perna e alivia com repouso. Costuma surgir sem pancada ou lesão que a explique. Com o tempo passa a doer à noite e em repouso, e a pessoa começa a mancar.
Osteonecrose do quadril tem cura?
Nos estágios iniciais, antes do colapso, a descompressão associada a enxerto ou a células da medula óssea pode interromper a progressão e preservar a articulação, embora nem todos os casos respondam. Depois do colapso, a prótese de quadril elimina a dor e devolve a função, mas o osso original não se recupera.
Osteonecrose sempre termina em prótese?
Não. Lesões pequenas, centrais e diagnosticadas cedo podem estabilizar com tratamento preservador e mudança dos fatores de risco, como suspender corticoide e álcool. A prótese fica para os casos com colapso da cabeça femoral e artrose secundária, situação em que ela é a opção com melhor resultado funcional.
Qual exame detecta a osteonecrose?
A ressonância magnética. Ela mostra a área de osso sem circulação meses antes de a radiografia apresentar alteração e ainda mede o tamanho e a posição da lesão. Já a radiografia serve para acompanhar a evolução e identificar o colapso. O médico costuma examinar os dois quadris.
Resumo
A osteonecrose da cabeça femoral é a morte do osso por falta de circulação, e atinge sobretudo adultos de 30 a 50 anos. Corticoide, álcool e trauma são as principais causas. A dor começa discreta na virilha e piora com o tempo. Antes do colapso, a descompressão com medicina regenerativa pode preservar o quadril. Depois dele, a prótese devolve o movimento.





