No Brasil, 1 em cada 3 crianças está obesa e em 2032 a previsão é que esse número suba para 1 a cada 2.
A obesidade é uma doença e tratá-la não tem a ver com estética, mas é uma questão de saúde pública, pois ela pode levar a diabetes tipo 2, aterosclerose subclínica desde a infância, hipertensão arterial, síndrome dos ovários policísticos, micropênis nos meninos, baixa força muscular na adolescência associada a incapacidade funcional aos 30 anos, ansiedade, depressão, TDAH e comportamentos compulsivos alimentares, incontinência urinária, distúrbios do sono e atraso de crescimento.
A causa da obesidade é multifatorial e seu início ocorre muito antes até mesmo da introdução alimentar da criança. Vemos que pais com obesidade e que não praticam exercício físico, mesmo antes da concepção, já constituem um fator de risco para filhos com obesidade.
Na gestação, os alimentos ingeridos pela mãe alteram o sabor do líquido amniótico, fazendo uma relação direta entre o ambiente seguro do útero e o sabor dos alimentos ingeridos pela mãe. Uma dieta saudável na gestação predispõe a uma melhor aceitação de alimentos saudáveis pela criança.
Durante o aleitamento materno, os alimentos ingeridos pela mãe mudam o sabor do leite, evitando uma dieta monótona, o que leva as crianças que mamaram no peito a uma melhor e mais ampla aceitação de alimentos do que as alimentadas apenas com fórmula.
Na introdução alimentar, a apresentação dos alimentos separados e sem temperos hiperpalatáveis como sal, açúcar e gorduras faz com que a criança amplie seu "cardápio de sabores" e tenha melhores hábitos alimentares na vida adulta.
Por fim, o comportamento dos pais em relação à comida é determinante para a relação da criança com os alimentos, visto que ela observa e segue muito mais o exemplo dos cuidadores do que suas falas.
A criança não tem livre acesso à comida, ela come o que é fornecido a ela
Quem determina o que a criança vai comer (compra, prepara e serve), onde a criança vai comer (em família, à mesa ou em frente às telas) e quando a criança vai comer (nas refeições ou em lanches diversos) são os pais, e eles precisam assumir a responsabilidade sobre isso urgentemente. À criança cabe decidir se vai comer e o quanto.
Culpabilizar a criança por erros alimentares é um engano que gera vergonha, culpa e distúrbios alimentares. Dietas restritivas impostas pelos pais, que privam a criança de alimentos comuns à família e aos amigos e que interferem no convívio social da criança, só vão piorar o quadro e trazer sequelas futuras.
Então, o que fazer? Mudar os hábitos de toda a família. Quando toda a família tem hábitos de vida saudáveis, a criança apenas copia a ação dos adultos. A ideia não está no restringir, mas em oferecer alimentos saudáveis.
Para começar, mais uma vez o básico funciona:
· Beber bastante água (trocar a oferta de suco, mesmo o de fruta, por água, inclusive nos lanches e nas refeições);
· Oferecer 5 porções de frutas, legumes ou verduras ao dia;
· Praticar exercício físico (pelo menos 3 vezes por semana);
· Dormir em quantidade suficiente para a idade;
· Variar o modo de apresentação dos alimentos;
· Incluir as crianças na compra e preparação dos alimentos;
· Estimular, e não obrigar, as crianças a experimentarem alimentos novos todos os dias;
· Evitar industrializados ao máximo;
· Usar palavras de incentivo.
Tratar a obesidade infantil não é sinônimo de emagrecer a criança. É tratar uma doença crônica, progressiva e multissistêmica e cada uma das complicações tem uma abordagem específica.





